sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A Paixão de Clarice Lispector




Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você – respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você- não copie uma pessoa ideal, copie você mesma – é esse seu único meio de viver. Juro por Deus que, se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia e ia ser punida e iria para um inferno qualquer.

Se é que uma vida morna não é ser punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo o que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu sabe. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade da alma...
  
Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os defeitos pode ser perigoso – nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro...Há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. 


Quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma em boi. Assim fiquei eu... para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões – cortei em mim a forma que podriria fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também a minha força. 

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