Minha melhor amiga tem a difícil tarefa de de conviver diariamente com as
alternâncias de fases causadas pelo transtorno bipolar. No entanto, pior do que
transitar constantemente entre inúmeras mudanças de humor, comportamento e
ritmos, é ouvir opiniões completamente equivocadas de pessoas sobre suas
nuances.
Tais comentários são geralmente feitos por pessoas completamente ignorantes no assunto a ponto
de achar que ela sofre de esquizofrenia, como ela me contou em nossa última
conversa.
E isso não é um privilégio só dela, muitos dos que são acometidos pela
bipolaridade ou outros tipos de transtornos sofrem com a mesma invasão e falta
de respeito, porque é assim que eu considero uma atitude tão ofensiva.
O médico e professor de Psiquiatria na Universidade de São Paulo
Valentim Gentil Filho concedeu uma excelente entrevista ao Dr. Drauzio Varella
e vale citar alguns momentos no intuito de elucidar os que desconhecem a realidade.
CONHECENDO O INIMIGO
No
passado, o transtorno bipolar era conhecido pelo nome de psicose
maníaco-depressiva, uma doença psiquiátrica caracterizada por alternância de
fases de depressão e de hiperexcitabilidade ou mania.
Sabe-se
que os transtornos bipolares estão associados a algumas alterações funcionais
do cérebro, que possui áreas fundamentais para o processamento de emoções,
motivação e recompensas. É o caso do lobo pré-frontal e da amígdala. Junto
dela, está o hipocampo que é de vital importância para a memória. A proximidade
dessas duas áreas explica por que não se perdem as lembranças de grande
conteúdo emocional. Por isso, jamais nos esquecemos de acontecimentos que
marcaram nossas vidas.
Outro
componente envolvido com os transtornos bipolares é a produção de serotonina no
tronco-cerebral (o cérebro arcaico), uma substância imprescindível para o
funcionamento harmonioso do cérebro.
DISCUTINDO A NOMENCLATURA
Drauzio – Por que, nos anos 1980, a antiga psicose maníaco-depressiva passou a
chamar-se transtorno bipolar?
Valentim– Analisando separadamente os elementos que compõem esse nome, pode-se dizer que a palavra psicose carrega a conotação de estigma, isto é, de marca infamante, vergonhosa. Maníaco, por sua vez, é um termo técnico derivado do grego e significa loucura. Depressivo era o termo mais brando dos três e que menos impacto causava. Por isso, considerou-se que a expressão psicose maníaco-depressiva era pesada demais para designar uma doença que, de certa forma, não era tão terrível quanto o nome fazia supor. A mudança de nomenclatura ocorreu, então, para diminuir o estigma e para estabelecer distinção entre esse tipo de transtorno e as depressões unipolares que nunca evoluem para a fase de euforia, de mania ou hipomania. Além disso, essa distinção foi importante para verificar se biologicamente as patologias eram diferentes e, portanto, exigiam condutas especiais de tratamento.
Valentim– Analisando separadamente os elementos que compõem esse nome, pode-se dizer que a palavra psicose carrega a conotação de estigma, isto é, de marca infamante, vergonhosa. Maníaco, por sua vez, é um termo técnico derivado do grego e significa loucura. Depressivo era o termo mais brando dos três e que menos impacto causava. Por isso, considerou-se que a expressão psicose maníaco-depressiva era pesada demais para designar uma doença que, de certa forma, não era tão terrível quanto o nome fazia supor. A mudança de nomenclatura ocorreu, então, para diminuir o estigma e para estabelecer distinção entre esse tipo de transtorno e as depressões unipolares que nunca evoluem para a fase de euforia, de mania ou hipomania. Além disso, essa distinção foi importante para verificar se biologicamente as patologias eram diferentes e, portanto, exigiam condutas especiais de tratamento.
POSSIBILIDADES DE TRATAMENTO
Drauzio - Há tratamentos
eficazes para o transtorno bipolar?
Valentim– Há tratamentos tão eficazes quanto os existentes em qualquer outra área da medicina. Sua aplicação possibilita, em poucas semanas, reverter um quadro grave de euforia. A doença não tem cura, mas as pessoas melhoram, recebem alta e reassumem suas atividades. O risco de recaída ou de evoluir para depressão existe e é preciso estar atento ao uso de medicamentos antidepressivos que, embora eficazes, podem precipitar uma virada indesejável para a euforia ou acelerar a frequência das crises.
Valentim– Há tratamentos tão eficazes quanto os existentes em qualquer outra área da medicina. Sua aplicação possibilita, em poucas semanas, reverter um quadro grave de euforia. A doença não tem cura, mas as pessoas melhoram, recebem alta e reassumem suas atividades. O risco de recaída ou de evoluir para depressão existe e é preciso estar atento ao uso de medicamentos antidepressivos que, embora eficazes, podem precipitar uma virada indesejável para a euforia ou acelerar a frequência das crises.
EUFORIA PATOLÓGICA
Drauzio – Todos atravessamos na vida fases
de grande euforia e de grandes tristezas. Como diferenciar o quadro normal do
patológico?
Valentim – Em psiquiatria, os termos ainda não atingiram a especificidade necessária. Por exemplo, etimologicamente, a palavra euforia quer dizer humor normal, bom humor. Se o indivíduo está eufórico no carnaval, no dia do aniversário ou porque ganhou um prêmio ou um campeonato, isso nada tem de anormal nem de patológico. O que chama a atenção é a desproporção entre as circunstâncias e as reações, ou seja, o comportamento é desproporcional aos fatos ou inadequado ao ambiente. A pessoa está alegre e eufórica, quando nada ao redor justifica tais sentimentos. Como sua autocrítica está comprometida, age como se estivesse (e não está) sob o efeito do álcool ou de drogas. Seu pensamento fica acelerado e desorganiza-se de tal modo que os assuntos surgem em tumulto e é difícil acompanhar sua linha de raciocínio.

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